A crônica a seguir nasceu de uma postagem que encontrei nas redes sociais sobre um senhor de 78 anos que descobriu as avaliações do Google e passou a levar muito a sério sua nova função de crítico dos estabelecimentos do bairro. A ideia, o personagem e algumas situações partiram desse relato, que achei especialmente divertido; a partir dele, ampliei a história, inventei cenas, diálogos e detalhes e transformei o episódio em uma crônica ficcional, preservando o humor e a premissa que me fizeram querer recontá-lo. (Everton Pessan, setembro de 2026)
O crítico
Meu avô tem 78 anos e, até pouco tempo atrás, usava a internet com objetivos bastante definidos. Ver a previsão do tempo. Receber vídeos que ninguém pediu no grupo da família. Perguntar por que o celular estava dizendo que a memória estava cheia, embora ele jurasse que não tinha colocado memória nenhuma dentro dele. E ampliar fotografias utilizando uma técnica particular que consiste em apertar a tela com o indicador durante vários segundos, como se tentasse convencer o aparelho pela força.
Era um homem digitalmente inofensivo. Então ele descobriu as avaliações do Google. Ninguém ensinou. É importante registrar isso. É que determinadas descobertas tecnológicas, quando feitas por pessoas de 78 anos sem qualquer supervisão familiar, deveriam disparar algum tipo de alerta no celular dos parentes. “Seu Waldir acaba de descobrir uma nova função. Deseja bloquear?”. Não recebemos alerta nenhum.
A família soube pelo açougueiro. Meu pai entrou no açougue numa terça-feira para comprar carne. O açougueiro reconheceu o sobrenome.
— Você é filho do Seu Waldir?
Meu pai, sem saber se aquilo era uma acusação, respondeu:
— Sou.
O açougueiro apoiou as duas mãos no balcão.
— Seu pai me deu quatro estrelas.
Meu pai ainda tentou entender.
— Quatro estrelas de quê?
— No Google.
— Meu pai?
— Seu Waldir.
— Avaliou o açougue?
— Avaliou.
O açougueiro pegou o celular. Estava lá. Quatro estrelas. E um texto. Meu pai leu. Meu avô considerava a picanha excelente, o atendimento educado e a limpeza impecável. O problema, segundo ele, era o próprio açougueiro. Conversava demais. Formava fila. Precisava ser mais objetivo. No final, uma observação: “Voltaria.”
O açougueiro parecia sinceramente preocupado.
— Estou tentando melhorar.
Essa foi a frase que provocou a primeira reunião informal da família sobre o assunto. Porque uma coisa é seu pai descobrir o Google. Outra coisa é o comércio do bairro começar a mudar de comportamento por causa dele. Fomos investigar. Descobrimos que aquilo não era recente. Meu avô não tinha três avaliações. Nem vinte. Nem cinquenta. Tinha mais de trezentas.
Trezentas!
Ele vinha avaliando silenciosamente o bairro havia meses. Era praticamente uma Controladoria-Geral da União com CPF. Pior: tinha nível alto de “Local Guide”. Tinha medalhinha. Pontuação. Visualizações. Fotografias. Comentários. Pessoas marcavam as avaliações dele como úteis.
Meu avô, que durante grande parte da vida precisou levantar a mão até em reunião de condomínio para ser ignorado, agora influenciava desconhecidos na escolha de pizzarias. Aquilo lhe dera uma espécie de poder tardio. E ele estava administrando esse poder com a serenidade perigosa de quem não tem mais nenhuma pretensão eleitoral.
Começamos a ler. Padaria. Quatro estrelas. O comentário dizia que o pão era excelente, mas que o café era uma loteria. Na terça-feira, fraco. Na sexta, forte. No domingo, segundo ele, “capaz de ressuscitar parente”. Terminava dizendo que o estabelecimento precisava escolher uma personalidade para o café. “Não falta talento. Falta constância.”
Meu pai abaixou o celular.
— Ele escreveu isso?
— Escreveu.
— Meu pai nunca falou “constância” comigo.
Continuamos. Posto de saúde. Cinco estrelas. Ficamos surpresos. Meu avô tinha passado quase três horas esperando atendimento. Mas explicou na avaliação: “Demorou muito. A médica foi excelente. As cinco estrelas são dela. O governo que se entenda com a demora”. Era uma avaliação com divisão constitucional de responsabilidades. Ele distinguia servidor público de ente federativo. Havia método.
Depois apareceu a pizzaria. Duas estrelas. Comentário longo. A pizza, segundo ele, era boa. O problema era a borda recheada. Não a borda em si. O preço. Meu avô considerava o adicional tão caro que escreveu: “Isso não é borda recheada. É financiamento habitacional de catupiry.” Em outra parte: “Quem pedir duas talvez precise apresentar comprovante de renda.”
Meu pai já estava rindo. Minha mãe, não. Minha mãe conhecia meu avô melhor.
— Vocês estão achando engraçado agora.
Ela tinha razão. Porque encontramos o pet shop. Cinco estrelas. Meu avô não tem cachorro. Não tem gato. Não tem passarinho. Nunca teve interesse especial por animais, exceto quando preparados com molho. Mesmo assim, havia avaliado um pet shop.
Fomos perguntar.
— O senhor comprou o quê lá?
— Nada.
— Então por que avaliou?
— Fui pedir uma informação.
— Que informação?
— Onde ficava uma rua.
— E deu cinco estrelas?
— O rapaz levantou, saiu do balcão, foi até a porta e apontou. Muito educado.
— Mas o senhor não é cliente.
— E precisa comprar cachorro para reconhecer educação?
Não soubemos responder.
Meu avô continuou:
— Se um dia eu tiver um cachorro, já sei onde vou.
— O senhor pretende ter um cachorro?
— Não.
— Então…
— Uma coisa não invalida a outra.
Era impossível discutir.
Foi mais ou menos nessa época que percebemos que ele havia estabelecido critérios. Banheiro limpo: ponto positivo. Cadeira desconfortável: ponto negativo. Funcionário que chama todo mundo de “meu patrão”: suspeito. Música muito alta: menos uma estrela. Ar-condicionado muito frio: comentário obrigatório. Café cortesia: bem-vindo, mas não garantia nota. Estacionamento pequeno: ele mencionava, mesmo não dirigindo havia anos. Havia ainda uma categoria especial: lugares que diziam “é rapidinho”. Ele não confiava.
— Quando dizem que é rapidinho — explicou uma vez — é porque já sabem que não vai ser.
Meu avô havia desenvolvido uma filosofia do atendimento ao consumidor. E, aparentemente, tinha público. Algumas avaliações acumulavam milhares de visualizações. Comerciantes respondiam. “Obrigado, Seu Waldir. Estamos trabalhando para melhorar.” “Volte sempre, Seu Waldir.” “Obrigado pela observação.”
Um restaurante escreveu: “Seu Waldir, trocamos o ventilador conforme sua sugestão.”
Foi quando meu pai ficou preocupado.
— Pai, o senhor reclamou do ventilador?
— Não reclamei.
— Reclamou, sim.
— Fiz uma observação técnica.
A observação técnica dizia: “O ventilador faz mais barulho do que vento. Parece helicóptero procurando pouso.” Trocaram o ventilador. Na padaria, aconteceu algo ainda mais grave. Meu avô voltou certa manhã. Pediu café. Tomou um gole. Tomou outro. Chamou o atendente.
— Mudaram alguma coisa?
— Padronizamos, Seu Waldir.
— O quê?
— O café.
Na parede havia um pequeno aviso interno para os funcionários sobre a quantidade correta de pó. Ele contemplou aquilo em silêncio. Depois bebeu mais um gole.
— Melhorou.
Não deu cinco estrelas imediatamente. Esperou duas semanas. Queria consistência. A pizzaria também respondeu. Informou que estava revendo os adicionais. Pouco tempo depois apareceu uma promoção de borda recheada. Não se chamava “Borda do Seu Waldir”, como a família começou a dizer. Mas meu avô chamava.
— Vamos pedir a minha borda?
— Não é sua, vô.
— Antes de mim custava doze reais.
Era difícil argumentar contra dados históricos.
A situação definitivamente saiu do controle quando inauguraria um restaurante novo no bairro. Alguns dias antes da abertura, meu avô recebeu uma mensagem.
— Me convidaram para jantar.
Minha mãe perguntou:
— Quem?
— Um restaurante.
— Qual amigo seu trabalha lá?
— Ninguém.
— Então por que convidaram o senhor?
Ele mostrou o celular. Era um convite para uma degustação. Queriam ouvir a opinião dele antes da inauguração. Houve silêncio na sala. Meu pai pegou o telefone, leu a mensagem duas vezes e devolveu.
— Pai, o senhor virou crítico gastronômico.
Meu avô respondeu:
— Não exagera. Nem abriu ainda.
No dia marcado, ele se preparou. Essa parte é importante. Tomou banho. Fez a barba. Passou perfume. Vestiu uma camisa social. Depois colocou um blazer. Um blazer. Para comer de graça num restaurante de bairro.
Minha avó perguntou:
— Vai aonde desse jeito?
— Trabalhar.
— Trabalhar?
— Fui convidado.
— Você está aposentado há quinze anos.
— Uma coisa não tem relação com a outra.
Levou um caderninho. Soube disso depois. Ele levou um caderninho e uma caneta. Sentou. Provou entrada. Anotou. Provou prato principal. Anotou. Perguntou se o molho era feito ali. Anotou. Foi ao banheiro. Ninguém sabe se anotou. Provavelmente. No final, o proprietário se aproximou.
— E então, Seu Waldir?
Meu avô fechou o caderno.
— A comida está muito boa.
O proprietário sorriu.
— Que bom!
— Cinco estrelas.
O sorriso aumentou.
— Mas as cadeiras são ruins.
O sorriso parou. Meu avô explicou que a cadeira era bonita, porém baixa e dura. Para uma pessoa de vinte e cinco anos, talvez não houvesse problema. Para uma pessoa de setenta e oito, havia. E restaurante, segundo ele, também envelhecia junto com a clientela.
— Minha esposa não aguenta quarenta minutos nisso aqui.
O proprietário tentou argumentar que as cadeiras combinavam com a decoração.
Meu avô olhou em volta.
— Combinar, combina.
Fez uma pausa.
— Só não dá para sentar.
Deu quatro estrelas. Na avaliação escreveu basicamente isso. Comida excelente. Atendimento excelente. Ambiente bonito. Cadeira incompatível com coluna vertebral. E terminou: “Corrijam e me chamem novamente.”
Minha mãe disse que ele estava abusando. Meu pai disse que o restaurante jamais o chamaria outra vez. Eu concordei. Chamaram. Duas semanas depois. Tinham trocado parte das cadeiras. Meu avô vestiu o blazer novamente. Levou o caderninho. Sentou na cadeira nova. Moveu um pouco o quadril. Apoiou as costas. Ficou alguns segundos em silêncio. O proprietário aguardava o resultado como quem espera o exame da Ordem.
Meu avô finalmente disse:
— Agora sim.
Reavaliou. Cinco estrelas. O restaurante respondeu publicamente agradecendo a contribuição. Foi um erro. Depois disso, ninguém mais segurou o homem. Meu avô começou a olhar estabelecimentos recém-abertos com o interesse de um ministro diante de uma nova pasta.
Passava por uma cafeteria.
— Já fui ali?
— Não.
— Preciso ir.
— Por quê?
— Não tem avaliação minha.
Descobrimos inclusive que ele mantinha uma lista. Uma lista. “Pendências.” Farmácia nova. Sorveteria. Loja de material de construção. Laboratório. Um restaurante japonês que ele não pretendia frequentar porque não gostava de peixe cru, mas sobre o qual dizia:
— Posso avaliar o atendimento.
Ele havia separado produto de serviço. Minha mãe insistiu que alguém precisava conversar com ele. Fui escolhido. Talvez porque eu tivesse menos medo. Sentei ao lado dele numa tarde. Ele estava no celular. Perguntei:
— Vô, o senhor não acha que está exagerando um pouco nessas avaliações?
Ele continuou olhando para a tela.
— Por quê?
— Porque agora o pessoal conhece o senhor.
— Ótimo.
— Tem comerciante mudando coisa porque o senhor falou.
— Melhor ainda.
— O senhor não sente que isso virou… sei lá… muito poder?
Ele tirou os óculos. Limpou as lentes na camisa. Colocou novamente. Olhou para mim.
— Meu filho, passei quarenta anos entrando em lugar, pagando, esperando, sendo mal atendido e ninguém perguntando nada.
Fez uma pausa.
— Quarenta anos.
Apontou para o celular.
— Agora perguntam.
Eu ia responder, mas ele continuou.
— E de graça.
Outra pausa.
— E agradecem.
Voltou a olhar para a tela.
— Eu não vou parar.
Fiquei quieto. Ele digitou alguma coisa. Perguntei:
— Está avaliando o quê agora?
— A farmácia.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Então por que está escrevendo?
— Justamente. Entrei, comprei, fui bem atendido e saí. Também tem que falar quando funciona.
Aquilo me desmontou um pouco. Porque, no fundo, talvez houvesse alguma justiça naquela obsessão. Durante décadas, meu avô tinha sido apenas “o próximo”. O próximo da fila. O próximo da senha. O próximo cliente. O senhor do caixa três. O CPF na nota. O “aguarde um momento”.
Agora tinha nome. Foto. Medalhinha. Seguidores involuntários. E estrelas para distribuir. Descobriu tarde que opinião também podia gerar protocolo.
Só havia um estabelecimento sobre o qual ele se recusava terminantemente a escrever. A casa dele.
Sugeri uma vez.
— O senhor avalia tudo. Por que não avalia sua casa?
Ele olhou imediatamente para a cozinha. Minha avó estava lá. Baixou a voz.
— Aqui não.
— Por quê?
Ele aproximou a cadeira.
— Porque lá fora eu sou crítico.
Olhou novamente para a cozinha.
— Aqui eu sou réu.
E, pelo que sei, até hoje essa é a única avaliação que Seu Waldir não teve coragem de publicar.
Não precisa…
…mas quem quiser usar esse texto como referência: PESSAN, Everton. O crítico. Notas de Pesquisa, 25 set. 2026. Disponível em: https://notasdepesquisa.com/2026/09/26/o-critico/. Acesso em: xx mês. Ano.
Leave a comment