Êta Guri: da poesia ao videoclipe com inteligência artificial
E se um poema que você escreveu há algum tempo, guardado em alguma gaveta ou perdido nos arquivos do computador, de repente ganhasse voz, sanfona, personagens e movimento? Foi mais ou menos isso que resolvi experimentar com Êta Guri, um poema meu que conta as aventuras de um menino levado, cheio de estripulias e cercado por aquelas expressões que a gente escuta desde pequeno. Comecei levando os versos para o Suno, uma ferramenta de inteligência artificial que cria músicas. Queria um forró bem nordestino, com sanfona, zabumba e triângulo. Precisei mexer um pouco na métrica para acomodar os versos à melodia, mas sem perder a história e o jeito de falar dos personagens. Depois, usei o ChatGPT para criar as ilustrações das cenas e, finalmente, o Canva para montar o videoclipe, sincronizando música, imagens e legendas. Foi interessante ver uma história que nasceu apenas de palavras ganhar tantas outras formas de expressão.
Você pode assistir ao resultado aqui: https://www.instagram.com/p/DexilOpvHBR/
E não pense que foi só apertar alguns botões e esperar a mágica acontecer. Precisei refazer músicas, modificar instruções, corrigir imagens com personagens de braços e pernas estranhos (a IA ainda inventa cada anatomia!), ajustar cenários e escolher o que realmente combinava com a história. Algumas tentativas ficaram ótimas, outras passaram longe do que eu imaginava. No fim, percebi que o trabalho mais importante continuava sendo meu: interpretar o poema, decidir como queria contar aquela história e avaliar o que as ferramentas estavam produzindo. Foi dessa experiência, meio artística, meio tecnológica e cheia de tentativas e erros, que surgiu uma ideia para a sala de aula.
Imagine uma turma começando essa atividade não diante de computadores, mas na biblioteca da escola. Os estudantes explorariam as estantes, folheariam livros, conheceriam autores e escolheriam poemas que despertassem seu interesse. Depois, fariam leituras compartilhadas, conversariam sobre rimas, ritmo, figuras de linguagem e sentidos dos textos. Tudo isso sem precisar de uma única tela. Só então começaria a etapa digital: transformar o poema escolhido em música com o Suno, criar imagens com o auxílio de ferramentas de IA generativa e produzir um videoclipe legendado no Canva. Cada grupo teria a oportunidade de experimentar, comparar resultados, corrigir problemas e fazer suas próprias escolhas. A tecnologia entraria como uma possibilidade de ampliar a experiência literária, não como substituta dela.
Mas existe uma questão que não podemos ignorar: os professores ainda precisam de formação para utilizar essas ferramentas de maneira crítica e pedagogicamente consistente. Não basta aprender a escrever um prompt ou descobrir onde clicar para gerar uma música. É preciso compreender o que essas tecnologias conseguem fazer, onde costumam falhar, quais cuidados exigem e, principalmente, como integrá-las ao planejamento das aulas. Essa formação precisa contemplar tanto o uso da IA pelo próprio professor, na preparação de materiais e atividades, quanto a mediação de experiências em que os estudantes utilizem essas ferramentas. Também envolve discutir autoria, direitos autorais, proteção de dados, acesso desigual às tecnologias e os limites daquilo que é gerado automaticamente. Sem essa preparação, corremos o risco de trocar uma atividade de aprendizagem por uma simples demonstração de ferramentas.
Pensando nessas possibilidades, organizei um plano de aula que articula habilidades de Língua Portuguesa do Currículo de Sergipe com habilidades do Currículo da Computação de Sergipe, especialmente aquelas relacionadas à produção digital, à autoria e à utilização crítica das tecnologias. A proposta combina atividades desplugadas e plugadas e pode ser desenvolvida com poemas de diferentes autores, estilos e períodos, observados os direitos de utilização das obras. Não é necessário seguir exatamente o caminho que fiz com Êta Guri. Os estudantes podem explorar diferentes gêneros musicais, estilos de ilustração e formas de apresentar suas interpretações.
O plano de aula está anexado a esta publicação e fica disponível para que qualquer professor da área de Linguagens possa utilizar, adaptar e experimentar com suas turmas. Minha intenção é compartilhar uma experiência que começou como uma brincadeira com um poema e acabou se transformando em uma proposta pedagógica. Continuo achando que o mais interessante disso tudo não é a inteligência artificial conseguir fazer uma música ou desenhar uma cena. É a possibilidade de um estudante encontrar um poema esquecido numa estante, gostar daquelas palavras e descobrir que pode fazer algo novo com elas. E, quem sabe, depois de terminar seu videoclipe, voltar à biblioteca procurando outra história para contar.
Você pode baixar o plano de aula aqui: https://docs.google.com/document/d/1lqN6WfSpRZbkpIB2AYfz55zC45ydyPL1/
Leave a Reply